Caros irmãos e irmãs: bom dia e bem-vindos! Obrigado pela visita. Agradeço as vossas palavras e os vossos testemunhos. Saúdo o Cardeal Vigário, todos vós e as vossas famílias. Alegro-me que tu, Justino, tenhas sido nomeado Diretor da Caritas: olhando para ti penso que crescerá, tu tens o dobro da estatura do Padre Ben. Avante! [riem, aplausos]. Alegro-me também pelo facto de a Diocese de Roma ter retomado o antigo costume de confiar uma igreja a um diácono para que se torne uma Diaconia, como fez contigo, caro André, num bairro popular da cidade. Saúdo-te com afeto e à tua mulher Laura. Espero que não acabes como São Lourenço, mas vai em frente! [riem].
Uma vez que me perguntastes o que é que eu espero dos diáconos de Roma, dir-vos-ei algumas coisas, como faço frequentemente quando vos encontro e me demoro com dois dedos de conversa com algum de vós.
Comecemos refletindo um pouco sobre o ministério do diácono. A estrada principal a percorrer é a indicada pelo II Concílio do Vaticano, que entendeu o diaconado como «grau próprio e permanente da hierarquia». A Lumen Gentium, depois de ter descrito a função dos presbíteros como participação na função sacerdotal de Cristo, ilustra o ministério dos diáconos, «aos quais – diz – são impostas as mãos não para o sacerdócio mas para o serviço» (n. 29). Esta diferença não é de pouca importância. O diaconado, que na conceção precedente era reduzido a uma ordem de passagem para o sacerdócio, readquire, assim, o seu lugar e a sua especificidade. Já o mero facto de sublinhar esta diferença ajuda a superar a praga do clericalismo, que coloca uma casta de sacerdotes “acima” do Povo de Deus. Este é o núcleo do clericalismo: uma casta sacerdotal “acima” do Povo de Deus. E se não se resolver isto, o clericalismo continuará na Igreja. Os diáconos, precisamente porque dedicados ao serviço deste Povo, recordam que no corpo eclesial ninguém se pode elevar acima dos outros.
Na Igreja deve vigorar a lógica oposta, a lógica do abaixamento. Todos somos chamados a abaixar-nos, porque Cristo se abaixou, fez-se servo de todos. Se há alguém grande na Igreja é Ele, que se fez o mais pequeno e o servo de todos. E tudo começa a partir daqui, como nos recorda o facto de o diaconado ser a porta de entrada na Ordem. E fica-se sempre diácono. Lembremo-nos, por favor, que sempre, para os discípulos de Jesus, amar é servir e servir é reinar. O poder está no serviço, em mais nada. E como tu recordaste o que eu digo, que os diáconos são os guardas do serviço da Igreja, por conseguinte pode dizer-se que são os guardas do verdadeiro “poder” na Igreja, para que ninguém vá além do poder do serviço. Pensai nisto.
O diaconado, seguindo a estrada principal do Concílio, conduz-nos, assim, ao centro do mistério da Igreja. Tal como falei de «Igreja constitutivamente missionária» e de «Igreja constitutivamente sinodal», assim digo que deveremos falar de «Igreja constitutivamente diaconal». Efetivamente, se não se vive esta dimensão do serviço todos os ministérios se esvaziam a partir de dentro e tornam-se estéreis, não dão fruto. E, pouco a pouco, mundanizam‑se. Os diáconos recordam à Igreja que é verdade aquilo que Santa Teresinha descobriu: A Igreja tem um coração ardente de amor. Sim, um coração humilde que palpita de serviço. Os diáconos recordam-nos isto quando, como o diácono São Francisco, levam aos outros a proximidade de Deus sem se imporem, servindo com humildade e alegria. A generosidade de um diácono que se gasta sem procurar as primeiras filas tem perfume de Evangelho, conta a grandeza da humildade de Deus que dá o primeiro passo – sempre. Deus dá sempre o primeiro passo – para ir ao encontro até de quem lhe voltou as costas.
Hoje temos de estar atentos também a outro aspeto. A diminuição do número dos presbíteros levou a um empenhamento predominante dos diáconos em funções de suplência que, por importantes que sejam, não constituem o específico do diaconado. São funções de suplência. O Concílio, depois de ter falado do serviço ao Povo de Deus «na diaconia da liturgia, da palavra e da caridade», sublinha que os diáconos estão sobretudo – sobretudo – «dedicados aos ofícios da caridade e da administração» (Lumen Gentium, 29). A frase remete para os primeiros séculos, quando os diáconos se ocupavam em nome e por conta do Bispo das necessidades dos fiéis, particularmente dos pobres e dos doentes. Podemos ir beber também às raízes da Igreja de Roma. Não penso apenas em São Lourenço, mas também na opção de dar vida às diaconias. Na grande metrópole imperial organizaram-se sete lugares, distintos das paróquias e distribuídos nos municípios da cidade, em que os diáconos desempenhavam um trabalho capilar em favor de toda a comunidade cristã, particularmente dos “últimos”, para que, como dizem os Atos dos Apóstolos, ninguém entre eles sofresse necessidade (cf. 4, 34).
Por isso em Roma procurou-se recuperar esta antiga tradição com a diaconia na Igreja de Santo Estanislau. Sei que estais bem presentes também na Caritas e noutras realidades próximas dos pobres. Fazendo assim nunca perdereis a bússola: os diáconos não serão “meio padres” ou padres de segunda divisão, nem “meninos de coro de luxo”. Não. Nessa estrada não se avança. Serão servos solícitos que se esforçam para que ninguém seja excluído e o amor toque concretamente a vida das pessoas. Em definitivo, poderia resumir-se em poucas palavras a espiritualidade diaconal, isto é, a espiritualidade do serviço: disponibilidade dentro e abertura fora. Disponíveis dentro, de coração, prontos ao sim, dóceis, sem fazer girar a vida em torno da agenda pessoal; e abertos fora, com o olhar dirigido a todos, sobretudo a quem ficou fora, a quem se sente excluído. Li ontem uma passagem do P. Orione, que falava do acolhimento aos necessitados, e dizia: «Nas nossas casas – falava aos religiosos da sua congregação – nas nossas casas deve ser acolhido quem quer que tenha uma necessidade, qualquer tipo de necessidade, qualquer coisa, quem tenha alguma dor». Gosto disto. Receber não só os necessitados, mas também quem tem uma dor. Ajudar esta gente é importante. Confio-vos isto.
Acerca do que espero dos diáconos de Roma, acrescento ainda três breves ideias – mas não vos assusteis: estou já a terminar – que não vão no sentido das “coisas a fazer”, mas das dimensões a cultivar. Em primeiro lugar, espero que sejais humildes. É triste ver um bispo e um padre que se pavoneiam, mas ainda é mais triste ver um diácono que se quer colocar no centro do mundo, ou no centro da liturgia, ou no centro da Igreja. Humildes. Todo o bem que fazeis seja um segredo entre vós e Deus. E assim dará fruto.
Em segundo lugar, espero que sejais bons esposos e bons pais. E bons avós. Isto dará esperança e consolação aos casais que estão a viver momentos de cansaço e que encontrarão na vossa simplicidade genuína uma mão estendida. Poderão pensar: «Repara no nosso diácono! Está contente por estar com os pobres, mas também com o pároco e até com os filhos e com a mulher!». Até com a sogra, é muito importante. Fazer tudo com alegria, sem queixas: é um testemunho que vale mais do que muitas pregações. E fora com as lamentações. Sem se lamentar: «Tive tanto trabalho, tanto…». Nada. Engoli [mandai para baixo] estas coisas. Fora. O sorriso, a família, abertos à família, a generosidade…
Por fim, terceira [coisa], espero que sejais sentinelas: não só que saibais avistar os distantes e os pobres – isto não é muito difícil – mas que ajudeis a comunidade cristã a avistar Jesus nos pobres e nos distantes, enquanto bate às nossas portas através deles. É uma dimensão também, diria, catequética, profética, da sentinela-profeta-catequista que sabe ver além e ajudar os outros a ver além, e ver os pobres, que estão distantes. Podeis fazer vossa aquela bela imagem que está no final dos Evangelhos, quando Jesus, de longe, pede aos seus: «Não tendes nada para comer?». E o discípulo amado reconhece-o e diz: «É o Senhor!» (Jo 21, 5.7). Em qualquer necessidade, ver o Senhor. Assim também vós avistais o Senhor quando, em tantos dos seus irmãos mais pequenos pede para ser alimentado, acolhido e amado. Aqui tendes. Gostaria que fosse este o perfil dos diáconos de Roma e de todo o mundo. Trabalhai nisto. Vós tendes generosidade e ide avante com isto.
Agradeço-vos por aquilo que fazeis e por aquilo que sois e peço-vos, por favor, que continueis a rezar por mim. Obrigado.
Aula da bênção, sábado, 19 de junho de 2021